Em Cavalo de Guerra, a guerra para Steven Spielberg é um conto de fadas. O diretor, que tem aquela habilidade incrível em retratar o mundo pelos olhos das crianças, como faz de maneira única em E.T - O Extraterrestre e Império do Sol, faz da história de Michael Morpurgo, Lee Hall e Richard Curtirs (autores do romance e da peça nos quais o filme é baseado) uma saga cheia de fantasia.
Cavalo de Guerra é quase a história de Pinóquio, só que no lugar do boneco de madeira temos um cavalo cheio de sentimentos chamado Joey. O garoto que cria o animal desde pequeno, Albert Narracott (interpretado por Jeremy Irvine) seria o Gepeto, criador de Pinóquio. A diferença é que ao contrário do boneco, Joey parte pelo mundo contra a sua vontade. A Primeira Guerra Mundial separa ele do garoto, que ainda não tem idade para se alistar e não pode acompanhar o seu querido companheiro. Em sua jornada, o cavalo cai nas mãos de várias figuras, que se revezam muito bem protagonizando o filme.
Spielberg é especialista em truques do cinema e abusa disso neste filme. Alguns desses truques são bem rasteiros, como, por exemplo, criar tensão com uma arma apontada para alguém - o que ele faz diversas vezes ao longo do filme - ou usar a música de seu compositor preferido, John Williams, para tirar lágrimas do espectador. A verdade é que Spielberg faz um tipo de filme que só ele ainda faz hoje em dia. Mostrar o horror da guerra em um "filme família" não é para qualquer um. Usando um exemplo recente, O Menino do Pijama Listrado tenta, mas não consegue. Pelo menos não da maneira que o diretor de Tubarão e Jurassic Park transforma tudo em uma experiência cinematográfica única. Sonhador, o judeu Spielberg tenta não tomar lados nesta guerra e está mais humano do que nunca, transformando o cavalo em ponte até para uma amizade entre um inglês e um alemão.
Mesmo assim, o filme é cheio de falhas. O roteiro é bem previsível, franceses e alemães falam inglês entre si e o drama às vezes parece infantil demais. Mas plasticamente é impecável. Isso está claramente ligado à beleza dos animais retratados (cavalos sempre foram os mais exaltadados na poesia de todosos tempos) e à fotografia de Janusz Kaminski, que é perfeita, retratando pores do sol tão comuns no cinema de Spielberg, mesmo longe do Technicolor que o diretor tanto ama - vale destacar que este é o primeiro trabalho dele totalmente feito em suporte digital. Uma mudança desastrosa para muitos, mas completamente natural pra ele.
Completam o elenco Emily Watson, David Thewlis, Peter Mullan, Niels Arestrup, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch e Toby Kebbell.




