17/01/2012

O Pinóquio de Spielberg

Em Cavalo de Guerra, a guerra para Steven Spielberg é um conto de fadas. O diretor, que tem aquela habilidade incrível em retratar o mundo pelos olhos das crianças, como faz de maneira única em E.T - O Extraterrestre e Império do Sol, faz da história de Michael Morpurgo, Lee Hall e Richard Curtirs (autores do romance e da peça nos quais o filme é baseado) uma saga cheia de fantasia.

Cavalo de Guerra é quase a história de Pinóquio, só que no lugar do boneco de madeira temos um cavalo cheio de sentimentos chamado Joey. O garoto que cria o animal desde pequeno, Albert Narracott (interpretado por Jeremy Irvine) seria o Gepeto, criador de Pinóquio. A diferença é que ao contrário do boneco, Joey parte pelo mundo contra a sua vontade. A Primeira Guerra Mundial separa ele do garoto, que ainda não tem idade para se alistar e não pode acompanhar o seu querido companheiro. Em sua jornada, o cavalo cai nas mãos de várias figuras, que se revezam muito bem protagonizando o filme.


Spielberg é especialista em truques do cinema e abusa disso neste filme. Alguns desses truques são bem rasteiros, como, por exemplo, criar tensão com uma arma apontada para alguém - o que ele faz diversas vezes ao longo do filme - ou usar a música de seu compositor preferido, John Williams, para tirar lágrimas do espectador. A verdade é que Spielberg faz um tipo de filme que só ele ainda faz hoje em dia. Mostrar o horror da guerra em um "filme família" não é para qualquer um. Usando um exemplo recente, O Menino do Pijama Listrado tenta, mas não consegue. Pelo menos não da maneira que o diretor de Tubarão Jurassic Park transforma tudo em uma experiência cinematográfica única. Sonhador, o judeu Spielberg tenta não tomar lados nesta guerra e está mais humano do que nunca, transformando o cavalo em ponte até para uma amizade entre um inglês e um alemão.

Mesmo assim, o filme é cheio de falhas. O roteiro é bem previsível, franceses e alemães falam inglês entre si e o drama às vezes parece infantil demais. Mas plasticamente é impecável. Isso está claramente ligado à beleza dos animais retratados (cavalos sempre foram os mais exaltadados na poesia de todosos tempos) e à fotografia de Janusz Kaminski, que é perfeita, retratando pores do sol tão comuns no cinema de Spielberg, mesmo longe do Technicolor que o diretor tanto ama - vale destacar que este é o primeiro trabalho dele totalmente feito em suporte digital. Uma mudança desastrosa para muitos, mas completamente natural pra ele.

Completam o elenco Emily Watson, David Thewlis, Peter Mullan, Niels Arestrup, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch e Toby Kebbell.

Um conto quase inofensivo

Em um dia qualquer em Buenos Aires, um homem encontra um chinês sendo jogado para fora de um táxi. Quando vai ajudá-lo, descobre que o asiático não fala uma palavra de espanhol e tudo o que ele tem é um endereço no braço. O argentino leva o homem perdido para o tal endereço e descobre que a pessoa que ele procurava não mora mais ali. Esse é o ponto de partida de Um Conto Chinês, longa mais recente de Sebastián Borensztein.

O filme conta com Ricardo Darín como protagonista, estrela de nove entre dez longas argentinos que saem em circuito comercial no Brasil, como O Segredo dos Seus OlhosAbutres, e os mais antigos, O Filho da Noiva e Nove Rainhas. Darín é um talento nato e não decepciona neste filme. No papel do solitário e amargo Roberto, ele mistura a cara fechada de um sujeito durão com a doçura de um homem que ainda está aberto para o amor, de um jeito que poucos conseguem.


Um Conto Chinês não segue a tradição de filmes argentinos densos, rancorosos e cheios de amargura. Há a temática histórica (a Guerra das Malvinas), mas o tom é sempre leve, o que torna o filme “fofinho”, quase inofensivo, apesar do roteiro esperto e muito bem construído. A maioria das cenas entre Darín e o chinês, Jun (interpretado por Ignacio Huang), são cômicas e conseguem ser engraçadas de verdade. Há também Mari (interpretada por Muriel Santa Ana), mulher eternamente apaixonada por Roberto, que é muito frio para corresponder. A atriz, no entanto, consegue fazer com doçura a persistente moça.

O elemento “fábula” do filme – de onde ele tira o seu nome – é o seu charme. Logo na primeira cena, em que uma vaca cai do céu em cima de um barco com um casal chinês, podemos ter uma ideia do rumo que a história vai tomar. E mesmo com um jeito meio fantasioso, às vezes até infantil, Um Conto Chinês é cativante.


12/01/2012

Homens políticos em conflito


A última cena de Tudo Pelo Poder nos remete à última cena de A Primeira Noite de Um Homem, na qual o personagem de Dustin Hoffman, depois de conseguir o que queria - fugir da igreja com a sua amada -, fica com aquela cara de dúvida, de "por que eu lutei tanto por isso? será que é isso mesmo o que quero?". A diferença é que aqui o personagem de Ryan Gosling está lutando para eleger um político custe o que custar. No filme, o resultado da eleição não importa. O que importa é como chegamos até lá.

Stephen Meyers (Ryan Gosling) é o diretor de comunicação da campanha de Mike Morris (George Clooney), governador que almeja ser o candidato democrata nas próximas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Morris é uma espécie de Barack Obama, surgiu como um político de espírito livre, contra a guerra, a favor do aborto e cheio de ideias novas, mas que no fim das contas acabou decepcionando a todos, pois nem sempre é possível jogar como desejamos dentro da política. Ainda mais quando surge a necessidade de fazer uma aliança com um senador (Jeffrey Wright), suja, mas que praticamente garante a vitória.




George Clooney, com um belo roteiro em mãos (escrito por ele, Grant Heslov e Beau Willimon, que também escreveu a peça no qual o roteiro é baseado), mostra que é bom diretor. Engajado, ele se aventura novamente pelo suspense político, como fez no ótimo Boa Noite e Boa Sorte, no qual criticava duramente o mcarthismo e a caça às bruxas. Mas diferentemente do filme de 2005, aqui Clooney opta pela fotografia colorida e por uma história mais atual.

O filme é cheio de atores consagrados, e que fazem muito bem as suas partes, como Paul Giamatti (o estrategista chefe da campanha adversária), Philip Seymour Hoffman (o chefe de Stephen), Marisa Tomei (a jornalista sem escrúpulos), Evan Rachel Wood (a estagiária pivô de todas as reviravoltas), além dos já citados Jeffrey Wright, George Clooney e Ryan Gosling, mais uma vez sendo um ótimo protagonista. Gosling prova que pode encarar qualquer papel, como este, de um homem em conflito e que vai custar a descobrir o que motiva o seu trabalho.

Belo e leve estudo do ser humano

O conflito entre uma mãe de espirito livre e uma filha conformada em viver uma vida estável e classe média dá o tom em Copacabana, filme do diretor francês Marc Fitoussi. A mãe em questão é Babou, vivida porIsabelle Huppert, atriz francesa renomada em um papel bem diferente dos seus personagens mais recentes e soturnos (como em A Professora de Piano). Aqui ela é uma mulher disposta a experimentar de tudo na vida e como consequência não consegue um relacionamento sério ou um trabalho que dê estabilidade financeira.


Babou decide cortar relações com a filha quando esta diz que vai casar e que nem sequer a convidará para o casamento (para não passar vergonha). A filha, Esmeralda (Lolita Chammah, filha de Huppert na vida real), odeia tudo na mãe: o seu flerte com a cultura indiana, as suas fracassadas tentativas de arrumar um trabalho e os seus novos amigos sem-teto, que ela decide abrigar ilegalmente em um quarto.

Babou tenta mudar de vida pela filha. Vai para a Bélgica, onde consegue um trabalho de vendedora e um affair com um estivador no cais. Isabelle Huppert faz bom proveito de um roteiro muito bem escrito para fazer um dos melhores papéis de sua carreira.

Um belo estudo do ser humano, mas contado de maneira leve, usando a melhor das saídas para isso: a comédia. Os personagens são carismáticos e bem construídos, deixando espaço para que Huppert brilhe como protagonista. Aure Atika, Jurgen Delnaet, Chantel Banlier, Joachim Lombard, Noemie Lvovsky, Guillaume Gouix, Magli Woch e Nelly Antignac completam o elenco.

06/01/2012

Breguice sem limites em noite de ano novo



Imagine um casamento no qual a noiva chega na igreja em uma carruagem puxada por cavalos para encontrar o seu príncipe encantado. Talvez o nível de breguice desta cena não seja suficiente para descrever Noite de Ano Novo, de Garry Marshall (diretor de Uma Linda Mulher e Idas e Vindas do Amor), uma das piores coisas já feitas pelo cinema. 

O filme, que se passa poucas horas antes da virada de 2011 para 2012, conta com vários figurões de Hollywood, como Hilary Swank, Robert De Niro, Halle Berry, Michelle Pfeiffer, Ashton Kutcher, Sarah Jessica Parker, Seth Meyers, Zac Efron, Katherine Heigl e Jon Bon Jovi, numa verdadeira disputa para ver quem consegue se destacar em meio a tantas histórias sem nenhuma conexão.
Todos personagens são clichês e rasos, como Ashton Kutcher, que faz um cara descolado e metido a depressivo, que na sua "revolta" rasga as decorações de fim de ano dos corredores de seu prédio. Nem adolescente de 15 anos nos seus piores dias faz coisa parecida.

Michelle Pfeiffer faz uma senhora de meia idade, desiludida com a vida (mas que em nenhum momento sabemos o motivo para ela estar assim), esperando encontrar a solução para os seus problemas em um garotão que a leva para satisfazer as suas vontades, como rodar a cidade de moto e visitar uma casa de massagens. 

Noite de Ano Novo chega ao cúmulo de criar uma disputa entre dois casais que vão ter o filho na noite do dia primeiro parecer saudável. Por conta de um prêmio em dinheiro, que o hospital dá para o primeiro bebê do ano, as mulheres grávidas consideram cesariana e outros métodos para "forçar" a chegada da criança. Uma bizarrice só. 

Como se não bastasse tudo isso, o filme ainda serve para mostrar que Abigail Breslin cresceu para se tornar tudo aquilo que o seu personagem em Pequena Miss Sunshine criticava, a beleza falsa e a futilidade das pessoas. Se diz comédia, mas não tem uma piada engraçada. Se diz romance, mas não há romance ou amor de verdade entre nenhum dos seus personagens. Por todos esses motivos, Noite de Ano Novo, além de ruim, é triste.